Anexo II.B – 5 princípios para a evolução da educação
Educação em Sociedades Regenerativas
Um padrão emergente é que, quando uma comunidade começa a fazer a sua transição, as escolas são uma das funções/ serviços que se seguem e o que as pessoas procuram é uma escola alinhada com os seus valores. Podemos encontrar isso em Idanha-a-Nova com o mundojogo Clonlara Portugal, em Lisboa com a Vila e a Florescer, em Mafra com a Enraizar, Odemira com a Escola da Esperança (Tamera), em Aljezur com a Quinta da Corema e muitos outros, para já não falar da explosão do ensino doméstico e dos projetos descentralizados como a Brave Generation Academy. Frederico Fezas com o Yunus Social Innovation Center (Católica-Lisbon ) está a criar condições para apoiar estes mundojogos de inovação social (que inclui a ecologia, a natureza).
Otto Scharmer, inovador social e co-autor da Teoria U, caracteriza os 4 estágios de desenvolvimento das sociedades (mapa dos 4 sistemas operativos):
- Sociedade 1.0 – Tradicional: a educação tradicional centrada no professor;
- Sociedade 2.0 – Mercado: aprendizagem rápida, aprender rápido para aplicar rápido;
- Sociedade 3.0 – Impacto : Focado na aprendizagem e em quem aprende;
- Sociedade 4.0 – Regenerativa: Activação de ciclos de aprendizagem profundos.
A grande maioria dos sistemas de educação estão na Sociedade de Mercado. Em alguns contextos vemos emergir a Sociedade de Impacto como por exemplo no sistema Filandês e em Portugal, na Escola da Ponte e no movimento da escola democrática que se iniciou aí com o José Pacheco. Na América do Sul, onde o Brasil é um importante país inovador, o movimento cresce todos os dias como é exemplo as ‘escolas abertas’. José Pacheco, pedagogo Português, diz que a evolução da educação vem do Sul e dos pensadores do sul como Paulo Freire. O foco é sobretudo a Sociedades de Impacto.
Destaco aqui também o movimento das escolas Waldorf que sendo sobretudo focadas nas Sociedades de Impacto (e já com mais de 100 anos de experiência), o seu originador, Rudolf Steiner, era um pensador integral e visionava a activação de ciclos de aprendizagem profundos apontando na direcção das Sociedades Regenerativas.
No contexto de adultos, Otto Scharmer com a U-School está a trabalhar nesta direcção, bem como o mundojogo de Possibility Management e do Regenerative Development, de comunidades onde se procura trabalhar esta aprendizagem de uma Sociedade Regenerativa, baseada na consciência e na ativação dos corpos energéticos e arquetípicos, no mapa dos 5 corpos do Possibility Management.
Ao nível dos mais novos, são poucos os mundojogos onde se caminha para os mecanismos da educação nas Sociedades Regenerativas (4.0) e se experimenta nesta direcção. Dos mundojogos que conheço talvez a APAS co-criada pela Maria e pelo Pedro e a Escola da Terra em Tamera, sejam os melhores exemplos. As experiências para as Sociedades de Impacto já são múltiplas e com uma diversidade de oferta já assinalável em todo o pais. O Frederico Fezas, há alguns anos atrás, fez um estudo, para a Associação de empreendedores sociais Ashoka, sobre as escolas em Portugal com modelos pedagógicos inovadores e encontrou mais de 2 centenas de modelos.
Em Agosto de 2022, fiz um possibility lab focado na cura da minha passagem pela escola e pelo sistema de educação. Eu estive no sistema público por 26 anos, pois fui até ao doutoramento. Durante 5 dias intensos fiz processos de cura e ‘limpei’ a minha passagem pela escola, pela educação, sobretudo final de tradicional (1.0) (sim, ainda apanhei este sistema em funcionamento) e mercado (2.0). Tendo nascido 3 anos antes da revolução de Abril, quando entrei na escola apanhei os efeitos da revolução e fui cobaia de escolas, cursos, programas, … as condições eram contentores, ou construções provisórias e os professores, na sua grande maioria, jovens. O Estado Social Português estava a nascer – tive privilégio de observar este movimento de comuns que me informou, por dentro, do que é possível e das suas limitações.
Após esse processo de cura e resgatar a minha autoridade das figuras de autoridade da educação, incluindo o próprio sistema, comecei a ser convidado para fazer programas com jovens nas várias idades, desde os 12 até aos 30 anos.
Quando estava na João Sem Medo, uma amiga, a Helena, disse-me que eu era um educador. Eu disse-lhe que não era assim que me via, que era um empreendedor, um construtor de mundojogos e não um educador. E ela dizia, que talvez e que também era educador, mesmo que não me reconhecesse como tal. Grato Helena por teres sido das primeiras a notar. Levei quase uma década, após essa conversa com a Helena e muita cura, para me reconhecer como educador. Foi determinante o possibility lab de cura da minha passagem na escola, o trabalho com o Gil no PM+RD que nos levou a escolas e universidades, a participação no mundojogo educativo Vila – Escola Sustentável e agora o Centro Ecológico Alcanforado para a iniciação de jovens à idade adulta e as Sociedades Regenerativas, bem como a colaboração com o José no ISEG. As leituras de Agostinho da Silva, José Pacheco, Carl Rogers, H. Gardner e Ken Robison foram decisivas para tornar visível, em mim, esta dimensão. E estar-me a descobrir como pai de 3 adolescentes: como segurar o espaço para a sua crescente autonomia e experimentação? quem sou como homem e pai?
5 princípios para uma educação regenerativa (e de comuns)
A escola democrática (e.g. Escola da Ponte em Portugal ou a Escola Aberta em São Paulo) são baseadas em 2 princípios: ‘a autogestão dos participantes na aprendizagem’ e ‘a não hierarquia e alegria no aprender – aprendizagem focada no indivíduo e nos seus interesses’.
Uma educação que prepare pessoas para o futuro, face à minha observação, precisa de mais 3 princípios:
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Reconhecer que a aprendizagem acontece em 5 corpos (multidimensionalidade do Ser): físico, intelectual, emocional, energético e arquetípico; as Escolas Waldorf seguem em 4 corpos (o energético e arquetípico estão juntos). A escola da cultura moderna (sociedade 2.0) está focada no corpo intelectual e tem vindo a trabalhar o corpo físico pela perspectiva do ‘fazer exercício’.
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Reconhecer que a aprendizagem acontece na natureza em relação com a própria natureza, cultivando uma aprendizagem experiencial. A Pedagogia Waldorf assenta neste princípio, assim como as escolas da floresta (forest schools). A escola da cultura moderna e incluindo muitas das escolas democráticas, não cultivam este princípio e dão mais importância à aprendizagem intelectual, aprender com o passado, com o que já conhecemos (realidade verbal) do que a experienciar o presente, o que não é conhecido e que é emergente (realidade experiencial).
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Reconhecer que a tecnologia faz parte da nossa cultura e que há um uso ético e uma literacia digital e tecnológica. Vemos que a grande maioria do jovens e da população que utiliza tecnologia (e.g. telemóvel, computador, internet) tem medo de não conseguir sobreviver sem tecnologia – technopenuriaphobia, tornando-se ‘adicto’ às tecnologias sejam uso de telemóvel, redes sociais, jogos entre outros. O uso ético de tecnologia, incluindo a Inteligência Artificial, é hoje um dos temas chave para criar possibilidades futuras. A Escola do Freixo (Viana do Castelo) e o Park-IS são exemplos de escolas que dão vida a este princípio, bem como o mundojogo Khan Academy que tem usado a inteligência artificial na tutoria aos seus participantes.
Resumindo os 5 princípios:
Aprendizagem experiencial e em comunhão com a Natureza
Exemplo: escolas Waldorf, escolas da floresta
Aprendizagem em 5 corpos do Ser Humano
Exemplo: escolas Waldorf que trabalham em 4 corpos.
Aprendizagem individual e baseado nos meus interesses
Exemplo: escolas sociocrática, escolas democráticas, escolas abertas
Governação dialógica e participativa de quem participa na Aprendizagem
Exemplo: escolas sociocrática, escolas democráticas, escolas abertas
Aprender para a Tecnologia
Exemplo: escola do Freixo, Park-IS, Kahn Academy
Sublinho que não conheço nenhuma escola que esteja a trabalhar os 5 princípios de forma integral. A rede de ecoversidades tem muitos destes mundojogos que estão a experimentar nas fronteiras da cultura moderna no tema da educação.
Sistema Finlandês
Aprendizagem em 5 corpos do Ser Humano
O sistema Finlandês não usa explicitamente a terminologia dos 5 corpos e a educação na Finlândia é bastante holística, enfocando não apenas o aspecto cognitivo, mas também o emocional e social dos participantes. A educação socioemocional é uma prioridade nas escolas finlandesas, com grande ênfase no bem-estar dos participantes, trabalhando o desenvolvimento pessoal, habilidades sociais e emocionais.
Exemplo: As aulas de educação emocional e o foco no bem-estar mental são considerados fundamentais e o apoio psicológico está facilmente acessível para os alunos.
Governação dialógica e participativa
O sistema educacional Finlandês tem um forte compromisso com a participação de todos os envolvidos no processo educacional. Existe uma abordagem colaborativa entre alunos, professores e pais. Os professores na Finlândia têm muita autonomia profissional para criar planos de ensino personalizados e as escolas frequentemente envolvem os alunos em discussões sobre o que e como aprender, com uma forte ênfase no desenvolvimento da autonomia do aluno.
Exemplo: A autonomia do professor e a participação dos alunos são características marcantes, com os alunos, frequentemente, a oportunidade de influenciar sua experiência educacional.
Aprendizagem individual e baseada nos meus interesses
Uma das características mais notáveis do sistema finlandês é a personalização da aprendizagem. O currículo é suficientemente flexível para permitir que os alunos sigam seus próprios interesses, ao mesmo tempo em que garante que adquiram uma base sólida de conhecimentos.
Exemplo: Aulas e atividades são frequentemente adaptadas ao ritmo do aluno. A abordagem individualizada é uma característica essencial e muitas escolas têm planos de aprendizagem personalizados.
Aprendizagem experiencial em comunhão com a natureza
O sistema educacional Finlandês valoriza a educação ao ar livre e a experiência prática. As crianças finlandesas passam uma parte significativa do seu tempo ao ar livre, especialmente em atividades que envolvem a natureza, o que é compatível com a aprendizagem experiencial e com o desenvolvimento dos corpos físico e emocional.
Exemplo: As atividades ao ar livre são comuns nas escolas finlandesas, como parte do currículo que promove o desenvolvimento físico e a conexão com a natureza. Além disso, a educação ambiental é incorporada em várias disciplinas.
Tecnologia ética e literacia digital
A Finlândia é pioneira na integração ética da tecnologia na educação. Os alunos são ensinados a usar a tecnologia de forma crítica e responsável, com ênfase na literacia digital. No entanto, a utilização de tecnologia é sempre equilibrada com a interação social e o desenvolvimento de habilidades interpessoais.
Exemplo: As escolas finlandesas têm uma infraestrutura tecnológica avançada, mas o uso de tecnologia é focado em como ela pode ser uma ferramenta para aprofundar a aprendizagem e não como um fim em si mesma.
Considerações Finais
O sistema finlandês incorpora várias práticas alinhadas com a ideia de educação holística, com um forte foco no bem-estar, aprendizagem personalizada, educação experiencial e colaboração. Embora a ênfase maior não esteja na integração explícita dos cinco corpos do ser humano, ele aplica vários aspectos relacionados, como o desenvolvimento físico, emocional e intelectual dos alunos. A tecnologia é integrada de maneira ética, mas sempre com o objetivo de apoiar o processo de aprendizagem de forma equilibrada.
Em termos de evolução educacional, as escolas finlandesas podem ser vistas como um modelo robusto para a transição para as Sociedades de Impacto. Elas ainda não incorporam de forma total os princípios das Sociedades Regenerativas, com foco em ciclos de aprendizagem mais profundos e no desenvolvimento arquetípico, mas estão claramente caminhando na direção de uma educação mais flexível, inclusiva e centrada no aluno.
Escolas Abertas
A análise das escolas abertas (ou open learning schools), incluindo exemplos como a Escola da Ponte, o Projeto Âncora, a Escola Aberta de São Paulo, pode ser generalizada nos seguintes aspectos que as conectam. Essas escolas e projetos representam uma abordagem de aprendizagem mais fluida, flexível e participativa, baseada em princípios que desafiam os sistemas educacionais tradicionais. Vamos analisar os cinco princípios para a evolução da educação dentro desse contexto. Em certa medida foram inspiração do sistema filandês.
Aprendizagem em 5 corpos do Ser Humano
As escolas abertas adotam uma visão holística da educação, visando o desenvolvimento integral dos participantes. Embora nem todas as escolas abertas se refiram explicitamente aos “5 corpos”, muitas delas enfatizam o desenvolvimento físico, emocional, intelectual e social dos alunos de maneira integrada.
Exemplos: A Escola da Ponte foca no desenvolvimento de capacidades cognitivas e emocionais de forma interligada. O Projeto Âncora valoriza as experiências práticas como uma forma de aprendizagem que integra diferentes dimensões do ser.
Governação dialógica e participativa
A característica fundamental das escolas abertas é a governação participativa. A ideia de autogestão e não hierarquia é central, permitindo que alunos, professores e até mesmo a comunidade em geral tomem decisões sobre o currículo, os métodos de ensino e a organização da escola.
Exemplos: A Escola da Ponte é um exemplo notável de escola democrática, onde as decisões pedagógicas são tomadas coletivamente e os alunos desempenham papéis ativos na gestão da sua aprendizagem. O Projeto Âncora, com base na pedagogia aberta, segue uma linha semelhante, onde o poder é compartilhado pela comunidade escolar.
Aprendizagem individual e baseada nos interesses dos alunos
Nas escolas abertas, a aprendizagem personalizada é um princípio essencial. As abordagens de ensino são adaptadas aos interesses e necessidades individuais dos alunos, permitindo que escolham os temas e projetos que mais lhes interessam.
Exemplos: A Escola da Ponte e o Projeto Âncora permitem que os alunos se envolvam em projetos baseados nas suas paixões e interesses pessoais. Esses projetos incentivam a exploração independente e a autonomia no processo de aprendizagem. Além disso, escolas como as de Educação Democrática e muitas iniciativas de homeschooling também seguem esse princípio, permitindo um ritmo e uma direção de aprendizagem mais flexíveis.
Aprendizagem experiencial e em comunhão com a natureza
Muitas escolas abertas enfatizam a educação experiencial, onde os alunos aprendem fazendo, com foco em atividades práticas, experiências no mundo real e interação com a natureza. Isso não apenas amplia a aprendizagem, mas, também, ajuda a desenvolver habilidades sociais, emocionais e práticas.
Exemplos: A escola da Vila – Escola Sustentável em Lisboa coloca os participantes na interação directa com a natureza, dentro da cidade, seguido muito perto as escolas Waldorf.
Tecnologia ética e literacia digital
O uso da tecnologia nas escolas abertas tende a ser ético e consciente, com foco em sua aplicação para apoiar a aprendizagem e promover a literacia digital de forma equilibrada. A tecnologia não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta para aprofundar a exploração e o aprendizagem.
Exemplos: Nas escolas como a Escola da Ponte ou o Projeto Âncora, a tecnologia é integrada de forma que os alunos aprendem a utilizá-la de maneira responsável e crítica. Em algumas escolas abertas, as tecnologias como softwares de aprendizagem adaptativo ou plataformas de colaboração online são usadas para promover o trabalho em equipe, mas sempre com o objetivo de servir à educação e não para substituir interações humanas ou experiências concretas.
Considerações Finais
As escolas abertas ou comunidades de aprendizagem estão alinhadas com os princípios da educação regenerativa e da educação integral, desafiando a ideia de que o ensino precisa ser rigidamente estruturado e controlado por uma autoridade central. Elas valorizam a autonomia do aluno, a aprendizagem prática e a experiência, promovendo um ambiente de aprendizagem mais flexível, colaborativo e individualizado.
Essas escolas e projetos estão no centro de uma revolução educacional que visa preparar os alunos para um futuro mais complexo e incerto, capacitando-os a serem pensadores independentes, colaboradores e cidadãos críticos e conscientes. Elas procuram não só transmitir conhecimento, mas também ajudar os alunos a desenvolverem uma inteligência emocional, social, ambiental e a aprenderem a usar tecnologias de maneira ética e consciente.
No contexto global, podemos ver esse movimento crescendo em vários lugares do mundo. Essas iniciativas representam uma resposta aos desafios da educação tradicional, buscando transformar a maneira como aprendemos e nos relacionamos com o mundo.
No mundo uma das escolas que avança na direcção das Sociedades Regenerativas é a Green School em Bali. Em Portugal a Escola da Terra em Tamera caminha nesta direcção.