Anexo II.D – Caso de Estudo João Sem Medo

Sobre a João Sem Medo

A João Sem Medo foi um centro de empreendedorismo, uma comunidade e projeto social emergente em Lisboa entre 2010 e 2019, criada em resposta à crise económica de 2008 que afetou profundamente o país. A crise resultou em elevados índices de desemprego, especialmente entre pessoas com carreiras estabelecidas, 35 a 50 anos, maioritariamente mulheres, gerando um ambiente de frustração e incerteza. Este cenário levou à criação de um espaço de experimentação e co-criação focado no apoio a empreendedores, em particular aqueles que estavam em situações de vulnerabilidade, com situações de desemprego ou dificuldades económicas.

A João Sem Medo tinha como propósito apoiar a transformação das pessoas, das comunidades e das equipas por meio de uma abordagem holística e colaborativa ao empreendedorismo. O projeto foi um ponto de encontro para aqueles que buscavam alternativas para navegar em tempos de crise e criar novas formas de organização e de vida, baseadas em valores regenerativos e uma economia não monetizada.

A inovação da João Sem Medo manifestou-se nas seguintes dimensões:

  • Centro de Empreendedorismo
  • Comunidade de empreendedores evolucionários
  • Social Lab
  • Organização de comuns

A João Sem Medo foi mais do que um espaço físico ou um projeto empreendedor: foi um laboratório social, uma comunidade de empreendedores evolucionários e uma verdadeira organização de comuns que ofereceu um novo caminho para a transformação social, pessoal e económica. Ao longo de quase uma década de atividade, a comunidade experimentou, co-criou e formou redes de apoio para aqueles que buscavam não apenas sobreviver à crise, mas também criar alternativas mais sustentáveis, colaborativas e regenerativas para o futuro. Foi uma porta de entrada em Portugal de metodologias inovadoras e uma plataforma para a experimentação segura.

Centro de Empreendedorismo

Como Centro de Empreendedorismo, a João Sem Medo foi um núcleo onde as ideias, os projetos e as metodologias inovadoras foram cultivadas e lançadas. A principal proposta era oferecer uma alternativa ao modelo tradicional de empreendedorismo, que focava em lucros financeiros e sucesso individual. Em vez disso, a João Sem Medoenfatizava o empreendedorismo evolutivo, com base no desenvolvimento humano, na liderança participativa e um método de empreendedorismo mais alinhado com os valores do coração. Como se pode ver no manifesto, o posicionamento de centro foi inovador a data, dado que a João Sem Medo procurava possibilitar todas as dimensões do ecossistema de empreendedorismo.

As práticas de cocriação e experiência coletiva foram centrais neste centro, onde os participantes aprenderam e aplicaram metodologias como Teoria U, Dragon Dreaming, Design Thinking e Open Space Technology. Aqui, as pessoas não apenas lançavam negócios, mas também se conectavam com a sua própria essência e seus sonhos, criando projetos com significado profundo e impacto social. A economia da dádiva foi uma das abordagens aplicadas, onde as contribuições dos participantes eram baseadas no que cada um podia oferecer, sejam serviços ou conhecimentos, em troca de apoio mútuo e transformação coletiva.

Como centro de empreendedorismo inovou nos formatos com que apoiava os empreendedores. Abaixo listo alguns exemplos que se tornaram sucessos:

  • Ask Experts;
  • Cursos de iniciação ao Empreendedorismo/ Liderança Participativa / Desenvolvimento Humano;
  • Workshop Todos Podem Aprender Empreendorismo;
  • Workshop de Comportamento Empreendedor;
  • Receio do Empreendedor Evolucionário;
  • Recreio da Liderança Evolucionária;
  • Aprendizagem entre pares.

Comunidade de Empreendedores Evolucionários

A João Sem Medo foi mais do que um espaço físico; foi uma verdadeira comunidade de empreendedores evolucionários, composta por indivíduos que buscavam transformar, não só os modelos de negócio tradicionais, mas também a forma como nos relacionamos, colaboramos e impactamos o mundo ao nosso redor, tendo introduzido em Portugal este conceito dos empreendedores evolucionários.

Os empreendedores evolucionários dentro da comunidade caracterizavam-se pela busca de propósito, transformação pessoal e pelo desejo de criar um impacto regenerativo. A experimentação foi uma constante, com eventos regulares de formação, workshops e retiros, que promoviam a aprendizagem e a troca de conhecimentos. O foco estava numa liderança participativa, onde os participantes eram chamados a se engajar em processos coletivos de tomada de decisão e a usar metodologias de governança dialógica, como o World Café e o Art of Hosting. Esses empreendedores estavam preocupados em criar alternativas sustentáveis, que respeitassem tanto o desenvolvimento humano quanto o meio ambiente.

Social Lab

A João Sem Medo operava como um verdadeiro social lab (laboratório social), um espaço de experimentação contínua e de inovação social à escala da cidade de Lisboa. Este laboratório, não só facultou apoio aos indivíduos que enfrentavam desafios, como o desemprego ou a discriminação, mas também foi um centro de exploração de novas formas de organização e ação social.

O conceito de economia não monetizada (valores não materiais) foi uma experimentação central, onde os participantes colaboraram sem a exigência de transações financeiras. A ideia era explorar um modelo de economia da dádiva, onde o valor de uma ação ou contribuição era determinado não pelo dinheiro, mas pelo impacto coletivo e pela satisfação do bem comum. Isso levou à introdução de processos de valorização consciente, nos quais os participantes reflectiam sobre o valor das suas contribuições e como poderiam retribuir à comunidade de maneiras criativas e não necessariamente financeiras.

O social lab também foi uma plataforma para a co-criação de projetos que respondiam a questões sociais, como o apoio a mulheres em situação de violência doméstica, pessoas em situação de vulnerabilidade ou em contexto prisional.

Organização de Comuns

A João Sem Medo pode ser considerada uma verdadeira organização de comuns, já que a sua missão e estrutura estavam profundamente centradas na ideia de bem comum. Não se tratava de uma organização tradicional com uma estrutura hierárquica, mas de um espaço coletivo de co-criação e autoorganização.

Este conceito de organização foi inspirado em modelos como o da Teoria U e a governança dialógica, que fomentam a participação ativa de todos os membros no processo de tomada de decisão e na criação de novos caminhos para a sociedade. A João Sem Medo não era apenas uma incubadora de projetos de empreendedorismo, mas também um ponto de encontro para quem desejava contribuir para um bem comum, onde todos os participantes se viam como partes integrantes de um ecossistema maior.

Além disso, a organização focava-se em mobilizar capitais não materiais (como conhecimento, tempo, habilidades e experiência) para apoiar projetos com impacto social, em vez de depender exclusivamente de recursos financeiros. A criação de valor não era apenas medida em termos monetários, mas pelo impacto nas pessoas, nas comunidades e no meio ambiente.

Manifesto da João Sem Medo

  1. Acreditamos que o futuro não está determinado e que cada ser humano, com a sua acção, pode construir o seu futuro. Pode escolher ser feliz (princípio antropológico).
  1. Acreditamos que o empreendedorismo é um método, i.e., que as pessoas não nascem empreendedoras, antes aprendem a ser empreendedoras (princípio epistemológico).
  2. Acreditamos que as pessoas não falham, os projetos é que falham. As pessoas aprendem e voltam a desenhar e a fazer (princípio cognitivo).
  3. Acreditamos que cada pessoa só consegue mudar-se a si, que a mudança só pode ser desenhada por cada pessoa e que só ela pode tomar as decisões em cada contexto de ação (princípio da liberdade).
  4. Acreditamos que qualquer pessoa que decida construir o seu futuro está a empreender e, como tal, consideramos todo o tipo de empreendedorismo, desde o auto-emprego até ao ‘intraempreendedorismo’ e em todas as áreas de intervenção humana, seja económico, social, artístico, científico, filosófico ou espiritual (princípio holístico).
  5. Acreditamos que para criar valor é necessário apenas usar os recursos que temos em cada momento e mostrar que conseguimos gerar valor, i.e., que há pessoas ou organizações interessadas na nossa proposta de valor (princípio metodológico).
  6. Acreditamos que uma ideia (inovação) é indissociável dos seres humanos que a geraram e que acreditam nela, que o importante é processo de desenvolvimento da ideia, a sua materialização (enacting homem-conceito- acção) e que não há ideias boas ou más (princípio da inovação).
  7. Acreditamos que a acção da pessoa deve considerar os seus múltiplos efeitos, sobre o planeta, as pessoas, as sociedades e sobre a ética (princípio da sustentabilidade) – partilhamos do framework apresentado por Otto Scharmer do Presencing Institute para avaliar uma ideia: (i) qual o impacto na ‘terra e no solo’? (ii) qual o impacto no ‘bem estar e na felicidade’? (iii) em que empodera a juventude? (iv) como incorpora sistemas de governação dialógicos e cooperativos?
  8. Acreditamos que o método do empreendedorismo é colectivo, social e que se desenvolve numa ecologia que faz emergir uma consciência colectiva (princípio da ecologia).
Ecologia do empreendedorismo

É uma ecologia que integra a economia monetizada (material) e a economia não monetizada (não material), que se centra na pessoa, em cada pessoa individualmente e que contempla 7 eixos de desenvolvimento: comportamento empreendedor, desenvolvimento de ideias, conhecimento científico (conhecimento explícito), experiência (conhecimento de quem já fez, conhecimento tácito), método empreendedor, financiamento (€) e serviços.

Links para desenvolver o tema

Saras Sarasvathy, investigadora de empreendedorismo da Universidade da Virginia

  • Effectuation:

http://www.effectuation.org/

David Kelley, empreendedor IDEO

Bill Liao, empreendedor social

  • Stone Soup (livro):

http://www.stonesoupway.com/

Frederic Laloux, empreendedor e inovador social

  • ‘teal organizations’:

Ética do gratuito

Por Marco de Abreu

Somos uma empresa social, que potenciamos a economia não monetizada (como chamamos à economia da generosidade) para criar uma economia monetizada para os nossos sócios. Neste enacting, entre as duas economias (monetizada e não monetizada) geramos o nosso valor social. Para nós, o dinheiro é um instrumento para a nossa acção, ajudar pessoas a empreender, a aprender a viver com a incerteza e a utilizar a incerteza a seu favor. Empreendedorismo.

Somos um instrumento de economia local, assente na pessoa e no seu sistema de organização local com a ideia que a pessoa pode construir esse sistema em colaboração com os outros. Mas sabemos como utilizar as redes globais para potenciar as oportunidades da nossa economia local, entendemos como a mediação tecnológica potencia e amplifica o conhecimento humano, gerando valor global (economia).

Por último, utilizamos para financiar a nossa estrutura de custos, o modelo de negócio da comissão de serviço. Para ‘financiar’ a nossa acção, o modelo de negócio gratuito (economia da generosidade).

Resumimos isto na frase, “somos uma empresa social de empreendedores para empreendedores”.

Este gratuito é um gratuito de qualidade, é o melhor que cada pessoa sabe. É o melhor que eu, que estou a ler este documento sei, pois eu também posso participar. O outro (o que esta a fazer o workshop ou o aks experts) não é melhor que eu, apenas sabe mais do que eu no tema A. Mas eu também sei muito do tema B. Eu recebo e dou. Eu respeito e sou respeitado. É tão velho como a humanidade, ou pelos menos como Confúcio. Se ‘Eu’ sou o ‘Outro’ e o ‘Outro’ sou ‘Eu’, quando falto ao respeito ao outro, estou a faltar ao respeito a mim. Esta é a premissa base da ética do gratuito que aqui defendemos. Se decidi participar tenho direitos e deveres. Não tenho outra hipótese a não ser respeitá-la.

Tudo começa com um acto de liberdade:

– O João Sem Medo Center decidiu ter uma oferta gratuita, de qualidade, à comunidade.

– A pessoa decidiu se inscrever ou participar nesta oferta.

É neste acto fundador, nesta acção primordial, que reside o fundamento desta ética. O João Sem Medo Center não era obrigado a ter uma oferta para mim, nem eu era obrigado a me inscrever. Mas assim que formulou a oferta e assim que eu aceitei participar, inicia-se uma relação de partes livres, com direitos e deveres, desde logo legais, mas muito mais importantes que estes, éticos.

O João Sem Medo Center tem o dever de me oferecer um serviço de qualidade, em respeitar-me como pessoa, em salvaguardar a minha informação, em perguntar a minha opinião, em ouvir-me e em fazer uso dessa informação para a sua evolução, para a sua melhoria, por forma a que eu continue a ter um serviço de qualidade. Por forma a que a comunidade seja auto-sustentada.

Por sua vez eu tenho a obrigação de honrar o meu compromisso, estar presente, chegar a horas, participar, colaborar com o outros, disponibilizar-me para aprender e para ensinar. Para partilhar.

Sobre o valor do gratuito

É este gratuito sinónimo de coisa que não tem valor, ou que só é gratuito porque ninguém compra? Não. É gratuito por desenho, por modelo de negócio, por natureza(como é a Google). E sendo gratuito é de excelente qualidade, é o melhor que cada membro da comunidade consegue fazer, pessoas que têm empreendimentos realizados e uma história de vida. Pessoas cuja sua profissão é usar este conhecimento, que vivem dele. Simplesmente, no contexto do João Sem Medo Center, disponibilizam de forma gratuita, porque estão na comunidade, porque estão ao abrigo da lei ‘eu dou e recebo’. Dou do meu tempo e saber e recebo do tempo dos outros e saber dos outros. Porque me promovo e a minha actividade. Porque ajudo e sou ajudado. Porque participo na economia da generosidade.

Ser gratuito é sinónimo de qualidade. Do melhor que somos capazes em cada momento. Só assim estamos a altura de ajudar cada pessoa a construir o seu futuro, independentemente do seu poder económico, literacia, escolaridade, ou qualquer outro atributo.

Sobre a legitimidade da falta

Claro que é legítimo faltar. O meu filho ficou doente e tenho que ir buscá-lo. Cai e parti a perna. Fui atropelado. Um cliente ligou-me e tenho que ir em seu auxílio. Claro que é legítimo faltar. Mas esta legitimidade não me desresponsabiliza. É exatamente ao contrário. Porque quero ser respeitado tenho que respeitar. Tenho que respeitar aquele que em vez de estar com os seus filhos ou com os seus amigos, decidiu disponibilizar do seu tempo para partilhar algo comigo que eu quero saber, por liberdade de escolha. Ele, generoso, partilha comigo e faz de forma gratuita. Eu, livre, decidi que me interessava. É enorme a responsabilidade, maior do que se eu tivesse pago. Se tivesse pago a pessoa teria a recompensa monetária. Não teria a recompensa do reconhecimento. Aqui, como não há a monetária, só há a do reconhecimento. Se não venho, impossibilito a pessoa de ter a sua recompensa. Tão generosamente partilha comigo, eu aceito e, ainda por cima, não lhe recompenso. Não pode esta ser uma expressão de uma boa premissa ética.

Acresce o facto de, como as inscrições são limitadas, pelo imperativo de tempo e qualidade de serviço, ao inscrever-me limito o acesso a outro, que tem igual direito ao meu, apenas o decidiu exercer mais tarde. Se me inscrevo e não compareço, ofendo todos os outros que queriam estar presentes e não podem porque eu exerci a minha liberdade, mas não estive à altura da responsabilidade que esta me conferia. Se o outro faz o mesmo, eu nunca me vou conseguir inscrever ou estar presente. O feitiço voltou ao feiticeiro, qual boomerang ético, como explica a tragédia dos comuns.

No caso de falta e sempre que possível, é informar o João Sem Medo Center por forma a que este possa promover as diligências para que outro entre em meu Lugar. A razoabilidade e o bom senso ponderam todos estes pressupostos. Afinal somos humanos. Falham as pessoas que representam o João Sem Medo center, falham as que são servidas. Mas tal facto nos isenta da responsabilidade. Exerce-la com sabedoria é a arte de todas as pessoas que se respeitam a si mesmas.

Por ser legitimo faltar, só devo me inscrever-me quando tenho boas garantias que vou conseguir estar presente (sabemos que não existe a certeza absoluta!). Em dúvida devo esperar, por forma a não limitar o acesso ao outro.

Sobre chegar a atrasado

Como o serviço é de qualidade, como é gratuito e como a falta existe, se chegar atrasado, o mais provável é a acção já ter começado, irei perturbar os trabalhos, não devo tirar o proveito e muito provavelmente perco o meu lugar, caso haja, outras pessoas em espera. É legítimo, mas o atraso deve ser aceitável (na fronteira dos 15 minutos). Importa perceber que se começar tarde, acaba tarde e todos têm compromissos a honrar. A interacção social obriga a esta responsabilização porque os horários são para cumprir, com a flexibilidade necessária para o imprevisto mas sempre no respeito por cada uma das pessoas

Sobre ser membro (cooperador)

É maior a responsabilidade, pois decidi livremente entrar nesta comunidade e respeitá-la. Ao assumir um pressuposto errado (gratuito é mau, não faz mal faltar, posso chegar atrasado), não só tenho impactos sobre o outro, sobre mim, como também prejudico a imagem do João Sem Medo Center e da comunidade com a qual me identifico e me decidi associar. Sendo estes instrumentos importantes na apresentação pública da acção do João Sem Medo, inibo que mais pessoas possam conhecer a nossa mensagem e dar o seu contributo à comunidade, o que prejudica a comunidade e, por consequência, a mim próprio. Como leva tempo a sentir esse efeito, tomo como não existente. Não o devo fazer.