A Bambual Portugal editou o livro a “A Empresa Regenerativa” de Niels de Fraguier e Stephen Vasconcellos. Recomendo a sua compra e leitura. Tive o gosto de fazer parte da equipa que trabalhou neste livro.
O livro pode ser adquirido no link. E podem ver o texto que o Nuno da Silva escreveu sobre o livro.
É um livro importante para quem está a transitar do mundo das organizações de mercado (Sociedades de Mercado) para o universo do impacto consciente (Sociedades de Impacto). É bem escrito, cheio de exemplos e com uma visão claramente comprometida com a mudança na direcção das Sociedades Regenerativas.
Reflexão crítica
O livro “A Empresa Regenerativa” (de Niels de Fraguier e Stephen Vasconcellos) tem sido uma referência emergente para quem procura novas formas de organizar empresas com propósito, consciência ecológica e impacto social positivo.
Mas será que vai suficientemente longe?
Será que está de facto a falar de regeneração ? Será que há uma verdadeira alteração de paradigma ?
Este texto propõe uma leitura crítica do livro a partir dos mapas apresentados no livro “A Emergência das Sociedades de Comuns”, Marco de Abreu, 2025, um referencial que integra dimensões profundas da transformação cultural, social, ecológica e ontológica. O objetivo não é invalidar a proposta do livro, mas colocá-la em diálogo com exigências mais profundas do pensamento regenerativo. Os mapas que vou utilizar são:
- Mapa das Sociedades Regenerativas (página 114).
- Mapa das Sociedades de Comuns (página 289).
Mapa das Sociedades Regenerativas (MSR)
O Mapa das Sociedades Regenerativas compreende as seguintes distinções, que são apresentadas no Tomo II do livro a “A Emergência das Sociedades de Comuns”:
- Contexto (Responsabilidade, Sustentabilidade, Transparência).
- Mapas (Estruturas memeticas, Sistemas Operativos).
- Consciência (Individual, colectiva).
- Inconsciente (Mundo de baixo, sombra).
- Natureza (Lugares).
- Equipas ((co-criação inteligência colectiva).
- Desconhecido (Novo, nada).
Nos pontos que se seguem, vou usar este mapa para reflectir como o livro “A Empresa Regenerativa” endereça cada uma destas distinções. Vou valorizar, de forma intuitiva, com com 0 a 10, sendo 0 (zero) não cobre e 10 (dez) cobre totalmente.
MSR.Contexto (0/10)
Contexto é a relação com o nível de pensamento em responsabilidade, sustentabilidade e transparência. O livro faz um esforço para introduzir linguagem nova, diferente, que ajude na transformação.
Não é introduzida esta distinção. Não há clareza sobre as formas de pensar acção (nível de pensamento em responsabilidade), natureza (nível de pensamento em sustentabilidade) e informação (nível de pensamento em transparência). O trabalho do Bill Read (níveis de pensamento em sustentabilidade) é apresentado no livro, sem que se tire consequência para o contexto de transformação (framework do iceberg). Com frequência confunde-se Sustentabilidade com os níveis de pensamento em sustentabilidade como ‘sustentável’, ‘restaurativo’, ‘reconciliador’ e ‘regenerativo’.
É usada a palavra ‘radical’ ou ‘deep’ para caracterizar níveis de pensamento que estão aquém disso, por exemplo na partilha de informação (‘transparência radical’, sendo mais um ‘voluntário’ ou ‘informativo’) ou na responsabilidade (quando é mais ‘adulto maduro’ ou alto’).
MSR.Mapas (3/10)
Mapas de pensamento e estruturas meméticas resultam do contexto e criam possibilidades – novos resultados. O livro não tem esta distinção e introduz alguns mapas importantes, seja directo ou através de exemplos – framework Compass for Regenerative Business, B-Corps, ESG, Doughnut Economics. Para mim a grande maioria dos mapas apresentados são das Sociedades de Impacto.
A Teoria U é referida e não são introduzidos os mapas de pensamento e as estruturas meméticas em que a Teoria U – Iceberg da Teoria U – em particular os 4 sistemas operativos das sociedades. Está ausência faz com que se meta tudo no mesmo saco, os memes das Sociedade de Impacto e das Sociedades Regenerativas, confundindo os dois movimentos que estão a acontecer:
- Transformação dos memes das Sociedades de Mercado para as Sociedades de Impacto – onde se situa a maior transformação referida no livro.
- Transformação dos meses das Sociedades de Impacto para as Sociedades Regenerativas – onde aparece algumas pistas no livro
- Transformação dos memes das Sociedades Regenerativas para as Sociedades de Comuns – esporadicamente referida
O livro foca na primeira Mercado → Impacto e ao não apresentar estas distinções coloca no mesmo saco o que não é. Em cada uma destas transformações o que é necessário é diferente. São contextos diferentes, ou seja, temos mapas diferentes, possibilidades diferentes, decisões diferentes, comportamentos e acções diferentes e resultados diferentes.
Não esquecer que uma parte do mundo, talvez perto de 30% ainda esta a fazer a transformação de tradicional para mercado.
MSR.Consciência (7/10)
O trabalho de desenvolvimento, quer ao nível individual, quer ao nível colectivo. O que os autores chamam ‘trabalho interior’.
Este tema é coberto com dedicação e boas referências, quer ao nível individual, quer ao nível colectivo. Não são apresentados modelos de trabalho nem identificadas as características dos modelos de desenvolvimento humano, deixando no ar a ideia que qualquer modelo de desenvolvimento humano poderá levar-nos no caminho da evolução cultural o que não é o caso. Refere-se ao trabalho do Daniel Whal e ao da Laura e do Laloux que introduzem alguns elementos nesta direcção.
MSR.Inconsciente (0/10)
O livro reconhece a necessidade de trabalhar trauma e outros elementos e não é introduzida a distinção do mundo de baixo, nem do trabalho de sombra ao nível individual (e.g. dinheiro, capitalismo, patriarcado, sexualidade, tecnologia, poder, escassez, alergias, dependências – açucar, alimentação, drogas, cigarros, alcool, sexualidade e relações, agressividade, tecnologia), e nas equipas/ colectivos (e.g. racismo, colonialismo, violência sistémica), como necessário para a evolução cultural. Este é um dos pontos cegos estruturais do livro. A regeneração profunda exige trabalhar com os elementos rejeitados, reprimidos ou inconscientes — tanto a nível pessoal como coletivo.
MSR.Natureza (9/10)
O livro cuida deste ponto com dedicação e amor. Introduz excelentes exemplos de inspiração, muitas histórias. A parte referente aos povos indígenas, aos lugares, a localização, bioregiões é bem coberta. Na ligação com o trabalho de consciência – reconexão com a natureza – não apresenta soluções ou propostas.
MSR.Equipas (6/10)
O livro cobre bem esta parte, em particular com o mapa das organizações integrais (ou teal). Ao não trazer clareza no contexto continua a reforçar o padrão das hierarquias, mesmo quando fala no modelo das organizações integrais e usa modelos de liderança dos sistemas operativos de mercado e impacto. Seria benéfico introduzir mais clareza neste ponto.
MSR.Desconhecido (6/10)
O livro torna visível este ponto e a necessidade da experimentação e imaginação. E está muito ancorado nas teorias de inovação que são sobretudo originárias das sociedades de mercado e impacto. O que é ir verdadeiramente para o desconhecido e como fazer isso não é contemplado no livro.
MSR.Síntese (5/ 10)
É um livro importante pela síntese que faz, pelos exemplos, métodos e histórias. Esta ajustado a linguagem dos negócios. Recomendo a todas as pessoas que estão a trabalhar organizações, ancoradas nas sociedades de mercado a transitarem para as sociedades de impacto. O nome do livro mais adequado seria “Empresa de Impacto”.
São pontos fortes do livro a forma como cobre as distinções de Natureza e Consciência. Trabalha de forma satisfatória as distinções de Equipas e Desconhecido. E tem espaço de melhoria nas distinções de Contexto, mapas de pensamento e inconsciente.
Esta avaliação não desvaloriza o contributo do livro, mas posiciona-o no lugar certo: um convite útil para quem está ainda dentro do paradigma de marcado e do impacto (EGO), mas insuficiente para quem já vive, pratica ou sonha com as sociedades regenerativas e de comuns e as ecologias profundas (ECO).
Mapa das Sociedades de Comuns (MSC)
O Mapa das Sociedades de Comuns compreende as seguintes distinções, que são apresentadas no Tomo II, capítulo 10 do livro a “A Emergência das Sociedades de Comuns”:
- (Inclui e transcende as) Sociedades Regenerativas
- Propósito (Bem-Comum, Legado)
- Comuns
- Ética dos Comuns
- Propriedade de Comuns
- Organização de Comuns
- Economia de Comuns
Nos pontos que se seguem, vou usar este mapa para reflectir como o livro “A Empresa Regenerativa” endereça cada uma destas distinções. Vou valorizar, de forma intuitiva, com com 0 a 10, sendo 0 (zero) não cobre e 10 (dez) cobre totalmente.
MSC.Sociedades Regenerativas (5/10)
Ver o ponto anterior sobre o Mapa das Sociedades Regenerativas.
MSC.Propósito (2/10)
O tema do propósito organizacional é introduzido com clareza, e o pensamento em legado é introduzido. O Bem comum não está ao centro do propósito das organizações. O pensamento em responsabilidade é adulto e adulto maduro e o pensamento em sustentabilidade sustentável e restaurativo.
MSC.Comuns (1/10)
Os comuns são vistos na perspectiva de impacto, pos-modernista, como parte interessada. E reconhece que são as várias partes que tem que cuidar do todo organizacional e participar. É um passo para direcção de comuns.
MSC.Ética dos Comuns (1/10)
Uma parte é coberta quando s introduz o pensamento indígena e não é focada de forma intencional, nem como elemento de desenho para a organização social e governação em torno dos comuns e para o bem comum. O foco esta: ‘nós como natureza’.
MSC.Propriedade de Comuns (0/10)
O livro vive na dictomia da propriedade pública – privada e introduz a comunitária para aliviar a pressão. Não apresenta modelos nativos das Sociedades Regenerativas e não contesta os mapas de pensamento da propriedade.
MSC.Organização de Comuns (0/10)
Não é focado.
MSC.Economia de Comuns (0/10)
Não é focado. A lógica continua a ser a ‘evolução ou transformação do Capitalismo’. Eliminar ou evitar as externalidades negativas e actuar dentro dos limites sociais e planetários. O foco continua no material e no impacto.
MSC.Síntese (1/10)
Embora já haja sinais ténues desta matriz de consciência, em particular quando fala das culturas indígenas e do que há a aprender com elas, o centro de gravidade é o capitalismo e a cultura patriarcal – superar o que não funciona nestes constructos sem os deitar abaixo. É um resultado directo de não ter a distinção de sombra e do estado líquido que a transformação cria.
Mesmo não tendo um Mapa para as Sociedades de Impacto, penso que o livro teria uma valorização alta neste mapa, entre 8 a 10. No Mapa das Sociedades Regenerativas está entre 4 a 5 e no das Sociedades de Comuns entre 0 a 1.
Sendo um livro focado na transição de mercado → impacto não espanta não cobrir o mapa das sociedades de comuns e surpreende por introduzir muitos elementos de impacto → regenerativo.
Para quem pode funcionar o livro ?
Profissionais, empreendedores e consultores que estão a começar a transição do mercado para o impacto e querem uma visão ampla, inspiradora e acessível.
Para quem pode não funcionar o livro ?
Praticantes da regeneração profunda, facilitadores comunitários, ecologistas radicais ou quem já vive ou sonha os comuns como prática política, ecológica e espiritual.
Programas (gratuitos) baseados em livros e grupo de estudo
No post de celebração de 5 anos da Bambual Portugal podes encontrar uma proposta de dois programas, gratuitos, baseados em livros da Bambual para ajudar a navegar a transição:
- Organização de Mercado → Organização de Impacto
- Organização de Impacto → Organização Regenerativa
Nota pessoal
Eu gostei de ler e recomendo a sua compra e leitura. Os exemplos e histórias são inspiradores. O livro está bem escrito. Nota-se dedicação e amor dos seus autores. É um livro que aponta na direcção certa. Se dependesse de mim, este seria um livro lido e reflectido em todas as organizações, públicas ou privadas, e, em todos os níveis de gestão.
Gostei de aplicar os mapas das sociedades regenerativas e de comuns a empresa regenerativa e fazer esse diálogo e reflexão. Para mim reforçou o entusiasmo do que há para fazer, de toda a transformação social que estamos a co-criar.
Grato Gabriel por continuares, através da Bambual Portugal, a estimular a reflexão e uma acção informada.
